4.1
SÍNDROME DE WILLIAMS
4.1.1
Introdução
A
Síndrome de Williams, também chamada de Williams-Beuren, constitui uma desordem
genética multissistêmica, rara e subdiagnosticada. Afeta o desenvolvimento
psicomotor e apresenta um conjunto de características fenotípicas e
comportamentais peculiares, além de risco aumentado para determinados
distúrbios orgânicos.
O
nome da síndrome foi dado determinado em homenagem aos autores de seus
primeiros relatos. As primeiras descrições datam de 1961 e 1962, pelos médicos
J.C.P. Williams, na Nova Zelândia, e A. J. Beuren, na Alemanha,
respectivamente.
4.1.2
Epidemiologia
Ocorre
em uma baixa frequência na população, sendo que os registros epidemiológicos
variam entre os países. Estudos apontam para o diagnóstico da síndrome numa
média de 1 a cada 10.000 nascidos vivos. Muitos indivíduos com síndrome de
Williams permanecem sem diagnóstico ou são diagnosticados em idades
relativamente tardias. Há necessidade de serem identificados precocemente para
prevenir potenciais distúrbios relacionados à síndrome¹.
4.1.3
Etiologia
Sua
etiopatogenia está na deleção de aproximadamente 26 a 28 genes do braço longo
do cromossomo 7, sendo um deles relacionado à produção de elastina no
organismo. A deleção dessa região em um dos cromossomos do 7º par leva à
existência de apenas uma cópia de genes, ao invés de duas cópias, e reduz pela
metade a expressão de determinadas proteínas codificadas.
Ocorre
de forma espontânea durante a concepção e ao acaso, sem que haja relação com
fatores ambientais durante a gestação ou com história mórbida familiar. Na
maioria dos casos, não há outros indivíduos na família portadores da síndrome.
Apesar
dos avanços na citogenética, a ampla variação fenotípica entre pacientes com
síndrome de Williams permanece inexplicada. A extensão do material genético
ausente varia entre os indivíduos portadores da síndrome, mas não pode ser
responsabilizada pelas diferentes manifestações clínicas entre os indivíduos. A
hipótese para isso está na possibilidade da expressão de genes vizinhos ou de
polimorfismos nas cópias dos genes não-deletados da região relacionada à
síndrome de Williams¹.
4.1.4
Clinica
A Síndrome de Williams envolve uma
série de achados típicos. Os pacientes apresentam face semelhante a elfo ou
gnomo, filtro nasal longo e achatado, nariz pequeno e empinado, boca ampla,
dentes irregulares e amplamente espaçados, esmalte dentário com defeito, queixo
pequeno e sorriso freqüente. Tais aspectos físicos são variáveis e tornam-se
mais evidentes à medida que o indivíduo cresce.
No
primeiro ano de vida, em geral há dificuldade de se alimentar, irritabilidade
fácil e choro freqüente nesses indivíduos. Cólicas, distúrbios do sono, otites
recorrentes e estrabismo são queixas nessa faixa etária ainda mais comuns na
Síndrome de Williams, levando a uma média de dez consultas a mais ao pediatra.
Embora
aprendam tarde a falar, por volta dos 18 meses, muitos demonstram elevada
sensibilidade musical, através da facilidade para aprender rimas e canções.
Possuem boa memória auditiva para nomes de pessoas e locais e de reconhecimento
facial. No entanto, também ocorre na maioria dos casos hiperacusia e fonofobia
a determinados estímulos sonoros, como: ruídos de bater palmas, fogos de
artifício, trovão, liquidificador, avião, entre outros, e é comum a perda
auditiva neurossensorial durante adolescência e início da fase adulta.
Pacientes
com Síndrome de Williams na maioria dos casos apresentam personalidade amigável
e entusiasmada, sendo altamente sociáveis e empáticos com estranhos. Na
interação com outras pessoas, tendem a hiperconcentrar nos olhos das pessoas e
não é raro serem amigas de adultos, preferindo a companhia deles à de outras
crianças da sua idade, com quem têm dificuldade em fazer amizades.
Apesar
dos pontos fortes (sensibilidade musical, excelente memória auditiva remota,
personalidade sociável e habilidade com determinados aspectos da linguagem) que
podem apresentar em relação às demais pessoas, os indivíduos com Síndrome de
Williams frequentemente revelam atrasos no desenvolvimento psicomotor. Aprendem
a andar tardiamente e apresentam dificuldade na leitura, escrita, aritmética e
execução de tarefas que necessitem de coordenação motora, como: cortar papel,
desenhar, andar de bicicleta, amarrar o sapato, etc.
Há
déficit intelectual leve a moderado, constatado através de testes revelando
quoeficientes de inteligência entre 40 e 100 (média de 50 a 60) nos pacientes.
Na maioria dos casos (50 a 90%) há também ansiedade, preocupações excessivas
com determinados assuntos, déficit de atenção ou irritabilidade.
Durante a infância, podem surgir
alterações cardiovasculares relacionadas à perda de um alelo do gene da
elastina. Estenose aórtica supravalvar é rara em indivíduos comuns, mas na
Síndrome de Williams ocorre em aproximadamente 70% dos casos. Estreitamentos
arteriais também podem acontecer em arco aórtico, aorta descendente, artérias
pulmonar, coronária, renal, mesentérica e/ou intracranianas. Outros distúrbios
cardiovasculares comuns são: aumento na espessura da camada média e íntima das
carótidas (presente em todos os indivíduos), defeitos septais ventriculares ou
atriais (raros) e degeneração mixomatosa de valva aórtica ou mitral (em 20% dos
pacientes). Hipertensão surge em metade dos indivíduos e sua causa geralmente
não é identificada.
Fazem parte também da síndrome de
Williams alguns distúrbios metabólicos e endócrinos. Hipercalcemia transitória
em níveis elevados (associada a hipercalciúria e, mais raramente,
nefrocalcinose) pode ocorrer mais na infância. Na adolescência e fase adulta,
apresentam forte tendência para: intolerância à glicose, diabete melito e
obesidade. Hipotireidismo pode surgir em até um terço dos pacientes, mas em
geral é subclínico. Menarca precoce, velocidade de crescimento anual diminuída
também podem ocorrer, levando a menor estatura final, dificuldade no ganho de
peso apropriado na infância.
4.1.5
Diagnóstico
O
reconhecimento da Síndrome de Williams começa pela suspeita clínica. As
características citadas são as mais comumente encontradas em indivíduos com a
síndrome, mas dificilmente um desenvolverá todas elas outras manifestações não
incluídas nessa lista podem estar presentes.
O
diagnóstico clínico deve ser confirmado pela citogenética através de um teste
de DNA no sangue, utilizando a técnica de FISH (hibridização in situ com
fluorescência). Num indivíduo sem a síndrome, esse exame encontraria o par de
alelos do gene da elastina no 7º par cromossômico intacto. Quando há detecção
da ausência de um dos alelos, o diagnóstico está feito, pois essa alteração
está presente em mais de 98% dos indivíduos com Síndrome de Williams. Não há
testes que possam prever a severidade das alterações fenotípicas num
determinado paciente com Síndrome de Williams.
4.1.6
Abordagem
Os
pacientes com a Síndrome de Williams em geral necessitam de cuidados especiais,
conforme as manifestações clínicas e distúrbios que apresentam. Nas atividades
escolares em geral precisam de medidas de apoio. Em faixas etárias mais
tardias, deve haver supervisão em casa e no ambiente de trabalho, uma vez que
poucos são capazes de viver de forma totalmente independente.
O paciente encontra benefícios com a
psicoterapia, pois é extremamente comum haver desordem emocional e
psiquiátrica, a qual pode afetar intensamente sua qualidade de vida. Em metade
dos casos de Síndrome de Williams, os indivíduos fizeram uso de alguma
ansiolítico, sendo o inibidor da recaptação de serotonina a droga inicial de
escolha¹.
Complicação cardiovascular é a
principal causa de morte, portanto um acompanhamento cardiológico é essencial
nesses pacientes. Estenose aórtica pode sofrer progressão e deve ser abordada
com cirurgia ou procedimentos menos invasivos, como dilatações por balão ou
inserção de stent. Estenoses em artérias pulmonares frequentemente podem ser
apenas observadas, pois tendem à resolução espontânea¹.
Não
há anti-hipertensivos considerados ideais para os casos de hipertensão na
Síndrome de Williams, portanto a medicação deve ser prescrita de forma
individualizada. É fundamental monitorar freqüentemente a pressão arterial,
incluindo a avaliação nos quatro membros.
O hipotireoidismo subclínico deve
ser apenas observado e a intolerância à glicose em geral melhora com perda de
peso e atividades físicas. Os níveis de calcemia e glicemia devem ser
acompanhados durante toda a vida. Quando há hipercalcemia, recomenda-se dieta
com restrição de cálcio e/ou uso de bisfosfonato. Em caso de menarca precoce,
pode ser administrado um agonista de hormônio liberador de gonadotropina¹. Há necessidade de
avaliações periódicas auditivas, visto que episódios de otite são recorrentes e
há risco de perda auditiva, e de função renal, pelas infecções urinárias
freqüentes. Além disso, é importante pesquisar a presença de escoliose e contratura
das articulações, especialmente na adolescência.
Referências:
1 Pober BR. Williams-BeurensSyndrome. N Engl
J Med. 2010;362:239–252.
AUTOR:
Erickson Danilo Padovani
Médico - CRMPR29559
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